Sim, hoje vemos mais corpos, idades, tons de pele e formas de existir na tela. Mas presença não é o mesmo que mudança de padrão: uma campanha pode incluir pessoas diferentes e ainda tratar um único corpo como o mais desejável, jovem, saudável, elegante ou bem-sucedido. O ponto é observar não apenas quem aparece, mas como aparece, o que pode fazer na narrativa e quais corpos continuam ocupando o centro.
O que está em consideração
A diversidade visual avançou, mas muitas imagens ainda repetem a mesma hierarquia: um corpo é apresentado como referência, enquanto os demais surgem como exceção, inspiração, alívio cômico, “antes” de uma transformação ou prova de que uma marca é moderna. Esse descompasso produz o paradoxo do título. A tela pode parecer mais plural sem abandonar completamente o padrão que organiza atenção, desejo e pertencimento.
Há uma diferença importante entre representação e representação com poder narrativo. Uma pessoa com deficiência pode aparecer em um anúncio, por exemplo, mas isso não responde sozinho se ela é retratada como consumidora, profissional, amiga ou protagonista — ou se está ali apenas para sinalizar inclusão. O mesmo vale para corpos gordos, pessoas idosas, pessoas negras, pessoas trans e tantas outras que historicamente foram apagadas, caricaturadas ou limitadas a papéis específicos.
A pesquisa ajuda a entender por que essa leitura importa, sem autorizar conclusões simplistas sobre cada espectador. Uma revisão sistemática de 43 estudos experimentais encontrou que a exposição a imagens idealizadas de beleza em redes sociais aumentou a insatisfação corporal entre mulheres e homens jovens; a comparação da própria aparência com a imagem vista teve papel relevante. Os autores também ressaltam limites, como a concentração das amostras em estudantes universitários e a necessidade de mais pesquisas de longo prazo (Fioravanti et al., 2022).
Outra revisão, de caráter narrativo, relaciona imagens idealizadas, normas culturais e comparação social a preocupações com a imagem corporal, mas reúne estudos de métodos diferentes e não permite dizer que uma imagem isolada causará determinada reação em todas as pessoas (Merino et al., 2024). Essa distinção é essencial: uma fonte pode indicar uma tendência; ela não explica automaticamente uma cena específica nem diagnostica quem a assiste.
Também é útil lembrar que publicidade não é um espelho neutro da sociedade. Uma revisão de 337 artigos define representação na publicidade como o retrato justo e proporcional de grupos diversos em determinado meio promocional e mostra que a literatura ainda se concentra em algumas dimensões, como gênero, raça e etnia (Campbell, Sands e McFerran, 2025). Inclusão, portanto, envolve frequência, contexto, variedade e distribuição de protagonismo — não apenas uma fotografia com mais pessoas.
Como decidir o que está acontecendo
Use a sequência abaixo como uma leitura em movimento. Ela serve para filmes, séries, anúncios, capas, vídeos curtos, fotos de celebridades e conversas sobre aparência.
- 1.Descreva antes de interpretar. Anote quem aparece, em que tamanho, por quanto tempo, com que roupas e em qual ambiente. “Há três pessoas na cena” é observação. “A marca valoriza a diversidade” já é interpretação.
- 2.Mapeie o centro e a margem. Quem fala? Quem conduz a ação? Quem é fotografado de frente? Quem fica no fundo? Compare o corpo diverso que aparece com o corpo que recebe luz, close, romance, autoridade ou elogio.
- 3.Procure a função do corpo na história. Ele é uma pessoa completa, com desejos e conflitos variados, ou a aparência é a piada, o problema, a recompensa ou a justificativa da transformação?
- 4.Identifique a promessa. A imagem vende uma peça, uma experiência, uma narrativa de autoestima, uma mudança corporal ou a própria ideia de pertencimento? O produto é apresentado como ferramenta de inclusão ou como caminho para se aproximar do padrão?
- 5.Observe o antes e o depois. Se há “transformação”, pergunte o que mudou: o corpo, o figurino, a iluminação, o tratamento dos outros personagens ou a confiança? A história trata um formato corporal como condição para viver melhor?
- 6.Compare dentro e fora da peça. Veja outras campanhas da mesma marca, outros episódios ou o elenco completo. Uma imagem pode ser diversa isoladamente e pouco diversa no conjunto. Essa comparação é um fato observável; dizer que houve estratégia de reputação exige mais evidências.
- 7.Declare o limite. Uma leitura cuidadosa termina com algo como: “A cena sugere X por causa de Y, mas não permite afirmar a intenção dos criadores nem medir o efeito em todo o público”.
Sinais que apontam para uma mensagem — e sinais que a contradizem
| Pergunta | Sinal que pode indicar diversidade com protagonismo | Sinal que pode contrariar essa leitura |
| Quem conduz a cena? | Pessoas diversas têm voz, escolhas e consequências próprias. | Aparecem sem fala ou apenas como cenário. |
| Como o corpo é enquadrado? | A câmera varia ângulos e não transforma a diferença em espetáculo. | O corpo é isolado, corrigido ou usado como “antes”. |
| Qual é a relação com o produto? | O produto é oferecido a públicos variados sem prometer pertencimento condicionado à aparência. | A inclusão funciona como selo, mas a promessa continua sendo “pareça mais aceitável”. |
| Há variedade real? | Diferentes corpos aparecem em papéis cotidianos, profissionais e afetivos. | Um único corpo fora do padrão representa todos os demais. |
| O conjunto confirma a imagem? | A presença se repete em elenco, campanha, créditos e decisões criativas. | Uma peça pontual convive com exclusão no restante da comunicação. |
Aplicação em dez minutos
Escolha uma única cena ou imagem. Divida uma folha em três colunas: o que vejo, o que isso pode sugerir e o que ainda não sei. Durante o primeiro minuto, escreva apenas elementos verificáveis: número de pessoas, posição, falas, produto, cenário, cortes e palavras usadas. Nos dois minutos seguintes, formule duas interpretações diferentes — por exemplo, “a marca tenta ampliar seu público” e “a marca usa diversidade como recurso de imagem”. No quarto minuto, procure um detalhe que favoreça cada interpretação. No último, escreva uma pergunta de verificação: “Isso se repete em outras campanhas?”, “Quem criou a peça?”, “O roteiro dá a essa personagem uma vida além do corpo?”
O valor dessa atividade está em separar observação, fato, fonte, interpretação e limite. Você não precisa chegar a um veredito definitivo. A solução prática é trocar o impulso de compartilhar “olha como mudou” ou “olha como é falso” por uma análise mais precisa: “há uma mudança de presença, mas ainda preciso observar distribuição de protagonismo e contexto”.
Se você encontrar este padrão
Faça perguntas melhores. Em vez de “essa pessoa representa a diversidade?”, tente “que tipo de diversidade aparece e quais ficaram de fora?”. Em vez de “essa imagem é positiva?”, pergunte “positiva para quem, em qual contexto e com qual promessa?”.
Procure contexto: leia a legenda completa, veja se é publicidade, identifique a data e compare a peça com outras do mesmo projeto. Não compartilhe uma imagem impulsivamente, sobretudo quando ela expõe alguém, transforma uma pessoa em exemplo ou parece mostrar um “antes e depois”. Repostar sem contexto pode reforçar exatamente o enquadramento que você pretendia criticar.
Ao conversar com crianças e adolescentes, evite declarar que um corpo é certo ou errado e não transforme a conversa em avaliação da aparência. Pergunte o que a imagem quer vender, quem ficou de fora, como filtros e edição podem alterar uma foto e por que personagens diferentes merecem histórias completas. A revisão sistemática citada pede cautela ao generalizar resultados para adolescentes, pois apenas dois dos estudos analisados os incluíam; isso é um limite de evidência, não motivo para ignorar o tema.
E lembre: questionar um padrão não exige rejeitar toda imagem bonita, toda moda ou toda escolha estética. O objetivo é ampliar as possibilidades de viver e ser visto, não substituir uma obrigação por outra.
O que levar desta leitura
- Mais presença não garante mais igualdade: é preciso observar protagonismo, contexto e repetição.
- Uma fonte não é uma sentença: pesquisas mostram tendências e limites; não explicam sozinhas cada imagem ou cada pessoa.
- A melhor análise desacelera o compartilhamento: separar o que foi visto do que foi concluído reduz exageros e abre espaço para perguntas úteis.
- Depois da próxima cena, anúncio ou foto que você vir, pergunte: quem aparece, quem decide e que tipo de corpo a história ainda trata como centro?
Questionamentos Frequentes
– Ver mais corpos diferentes já é uma mudança positiva?
Pode ser um avanço de visibilidade, mas a avaliação depende de como essas pessoas são retratadas e de quem continua concentrando protagonismo, elogios e oportunidades narrativas.
– Toda publicidade diversa é apenas estratégia comercial?
Não. Publicidade tem finalidade comercial por definição, mas isso não impede uma representação respeitosa e relevante. A pergunta mais precisa é se a inclusão aparece de forma consistente ou apenas como recurso pontual.
– Uma imagem idealizada sempre causa insatisfação?
Não é possível afirmar isso para todas as pessoas. Estudos experimentais apontam efeitos médios em determinados grupos e condições; características individuais, contexto, frequência de exposição e interpretação também importam.
– Criticar padrões de beleza significa criticar quem gosta de se arrumar?
Não. A crítica se dirige à transformação de uma aparência específica em requisito de valor, saúde, amor, sucesso ou pertencimento — não às escolhas pessoais.
– Como conversar sobre isso sem reforçar vergonha corporal?
Fale de imagens, mensagens e contextos, não de defeitos no corpo de uma pessoa. Evite comparações e destaque que nenhum formato corporal determina caráter, competência ou dignidade.



