Imagine uma vitrine que reúne várias mulheres, todas apresentadas com a mesma linguagem visual, e coloca sobre a imagem duas palavras aparentemente simples: “The Perfect Body”. A cena não precisa dizer “você deve ser assim”. A associação já está montada: aqueles corpos aparecem juntos, iluminados, centralizados e nomeados como perfeitos. O olhar aprende a tratar uma escolha de produção como se fosse uma descrição neutra do mundo.
O caso central deste artigo é a campanha de 2014 da Victoria’s Secret para a linha de lingerie Body. A publicidade mostrava uma fileira de modelos e usava o slogan “The Perfect Body”. Após críticas públicas e uma petição organizada por três estudantes britânicas, a empresa retirou a peça on-line e alterou a mensagem; segundo a BBC, anúncios nas lojas ainda permaneciam com a formulação original naquele momento. O episódio é verificável, mas não prova que toda publicidade ou toda pessoa que vê uma imagem reaja da mesma maneira. Ele é um bom laboratório para observar como uma ideia de corpo pode parecer natural na tela — e como o público também pode contestá-la.
O que vemos
Comecemos sem interpretar. Vemos uma campanha comercial de lingerie, um grupo de modelos dispostas lado a lado, poses semelhantes, pouca variedade visível de corpos e a expressão “The Perfect Body”. O produto é chamado Body, de modo que existe um jogo verbal entre o nome da linha e a palavra “corpo”. A imagem não apresenta uma comparação explícita entre aquelas modelos e outras pessoas; ainda assim, a palavra “perfeito” funciona como uma legenda classificatória.
Também vemos repetição. Não se trata de uma única pessoa em um retrato editorial, mas de várias figuras que parecem confirmar umas às outras. Quando a mesma silhueta aparece muitas vezes no mesmo quadro, a escolha pode ser lida como regra de seleção: é assim que o corpo adequado para aquela publicidade se parece. Isso é uma observação sobre a construção visual, não uma avaliação da saúde ou da vida das modelos.
O que isso pode significar
A palavra “perfeito” não é apenas decorativa. Ela transforma uma preferência comercial — escolher determinado elenco, roupa, luz, pose e enquadramento — em uma suposta medida universal. A mensagem fica mais poderosa justamente porque não explica seus critérios. Perfeito em relação a quê? Ao caimento da lingerie? À tradição da marca? À expectativa de um público específico? A publicidade deixa a pergunta sem resposta e oferece a aparência como evidência.
A American Psychological Association, em seu relatório sobre a sexualização de meninas, descreve como a mídia pode estreitar a definição de atratividade física e relacioná-la a valor, apelo e aceitação. O documento não diz que uma campanha isolada determina o comportamento de todas as pessoas. Ele reúne pesquisas e teorias sobre padrões recorrentes de representação, objetificação e comparação. Essa diferença é importante: há uma distância entre afirmar “esta imagem causou tal efeito em todo mundo” e perguntar “que tipo de norma esta imagem torna mais disponível?”.
A campanha também mostra por que a linguagem visual não deve ser separada da linguagem verbal. Corpos longilíneos já eram uma escolha de casting e styling; o slogan acrescentava uma hierarquia. Em vez de “uma possibilidade de corpo” ou “corpos usados nesta campanha”, a peça falava no singular, como se houvesse um corpo definitivo. A forma do anúncio fazia a pluralidade desaparecer mesmo quando havia várias pessoas na fotografia.
O que aconteceu depois acrescenta uma segunda camada: o público respondeu. A reportagem da BBC registra que as críticas acusavam a campanha de promover um padrão estreito e pouco realista, enquanto uma empresa concorrente publicou uma versão que mostrava maior variedade corporal. A reação não elimina o impacto potencial da mensagem inicial, mas lembra que os significados são disputados. A audiência não é um recipiente passivo.
O que fica de fora
Ficam de fora corpos que não cabem naquela seleção, assim como histórias que não têm relação com aparência: trabalho, humor, idade, deficiência, raça, desejo, descanso, amizade e capacidade de escolha. Fica de fora também o processo industrial: casting, direção de arte, iluminação, edição e estratégia de venda. O anúncio apresenta um resultado limpo, não as decisões que o produziram.
Há ainda um limite no contra-argumento mais comum: “é só uma peça de lingerie”. Justamente por ser uma peça comercial, ela não precisa explicar o mundo inteiro. Mas pode contribuir para uma paisagem de imagens na qual certos corpos ocupam o centro repetidamente. Isso não permite diagnosticar pessoas pela aparência nem concluir que toda modelo é saudável ou não saudável. Permite, sim, examinar quem recebe o selo de ideal e quem permanece invisível.
Também é preciso olhar criticamente para o contraexemplo. A Dove afirma, em seu compromisso oficial com a Real Beauty, que pretende mostrar mulheres reais, evitar distorção digital e ampliar a diversidade de idades, tamanhos, etnias e outros marcadores. Isso oferece uma lógica visual diferente da campanha da Victoria’s Secret. Mas é uma promessa da própria marca, não uma prova de que toda a publicidade da empresa ou todo efeito sobre o público seja inclusivo. Uma campanha pode ampliar a representação e ainda vender um produto; as duas coisas podem coexistir.
Caixa de ferramentas para o observador
- 1. Ficha “fato ou leitura” — use ao ver uma imagem que provoca comparação. Anote três elementos observáveis, uma interpretação possível e uma pergunta em aberto. Isso separa o que está na imagem do que sua mente completa.
- 2. Tabela do centro e da margem — use ao analisar um anúncio ou trailer. Divida uma folha em “quem aparece”, “quem fala”, “quem é desejado”, “quem decide” e “quem não aparece”. O recurso revela ausências sem exigir que você rejeite a obra.
- 3. Perguntas de interesse — use antes de compartilhar. Quem ganha dinheiro com esta imagem? O que ela quer que eu compre, admire ou compare? Que escolhas de produção foram necessárias para ela parecer espontânea?
- 4. Exercício de cinco minutos — use quando a imagem parecer natural demais. Reescreva a legenda sem palavras como “perfeito”, “ideal” ou “correto”; depois imagine duas versões alternativas que preservem o produto, mas mudem a variedade de pessoas, os papéis e o enquadramento.
- No caso da Victoria’s Secret, a ficha poderia registrar: fato: há uma fileira de modelos e o slogan “The Perfect Body”; leitura: a repetição pode fazer aquela aparência parecer regra; pergunta: a palavra “perfeito” descreve o produto, o corpo ou uma estratégia de venda? A separação torna a análise mais precisa e menos acusatória.
Como levar isso para a vida real
Use o mesmo método diante de uma publicidade no celular, de uma capa de revista, de um trailer ou de uma publicação de celebridade. Primeiro, descreva a cena sem adjetivos sobre corpos. Depois, procure a promessa: pertencimento, juventude, sucesso, romance, controle ou confiança. Em seguida, observe a técnica: filtro, ângulo, corte, pose, repetição, trilha e texto. Por fim, pergunte o que a imagem não mostra e quem se beneficia de ela parecer inevitável.
O guia de educação midiática da MediaSmarts sugere perguntas semelhantes: quais formas corporais são mostradas de modo positivo, quais não aparecem, qual é o objetivo comercial e como ferramentas digitais influenciam a mensagem. A utilidade prática está em desacelerar a primeira impressão, não em fiscalizar o corpo de quem aparece ou de quem olha.
Conclusão
Então, quando a magreza extrema parece natural na tela? Ela tende a parecer natural quando a escolha é repetida, centralizada, pouco explicada e acompanhada de palavras que a transformam em padrão. O caso “The Perfect Body” mostra também o movimento contrário: uma audiência pode nomear a escolha, questionar o slogan e pressionar uma marca a responder.
A mudança concreta de olhar é simples: antes de perguntar “por que eu não pareço com isso?”, experimente perguntar “como esta imagem foi construída, o que ela está vendendo e o que deixou fora do quadro?”. Essa troca não exige rejeitar uma obra nem mudar o próprio corpo. Apenas devolve ao espectador uma parte do poder de interpretar.
Questionamentos frequentes
– A campanha prova que a Victoria’s Secret queria impor um único corpo a todas as mulheres?
Não. O que pode ser afirmado é que o slogan e a seleção visual apresentavam um padrão estreito como “perfeito”, e que isso foi criticado publicamente. A intenção completa da empresa não pode ser deduzida apenas da imagem.
– É errado gostar de uma campanha com modelos muito magras?
Não é necessário transformar gosto em culpa. A proposta é distinguir preferência pessoal de norma universal e perceber como escolhas repetidas influenciam o ambiente visual.
– Representatividade resolve o problema?
Não sozinha. Ampliar quem aparece é importante, mas também importa quem tem voz, quais papéis recebe, como é filmado e se sua presença não fica reduzida ao corpo.
– Este artigo avalia a saúde das modelos?
Não. Aparência não permite diagnóstico. A análise trata de linguagem publicitária, enquadramento, seleção e efeitos culturais possíveis.
Referências
•BBC Trending — “Victoria’s Secret changes course on ‘Perfect Body’ ads”
•American Psychological Association — Report of the APA Task Force on the Sexualization of Girls



